Sabe-se que os pais são cegos e mudos e tontos. A primeira prova disso, tive-a aqui há uns meses, ainda estava longe de imaginar o que me iria acontecer.
Nesse sábado remoto, combinei jantar com uns amigos - amigos antigos - num encontro que deveria servir para discutir futebol e para actualizar o anedotário sexual e a vida íntima das nossas ex-colegas de faculdade.
Surpreendentemente, foi fácil conciliar a minha agenda com a preenchida vida marital e proto-marital dos restantes comensais: desta vez, nenhuma das suas namoradas tinha ainda reservado a noite para cinema, desta vez, nenhuma delas se lembrara de marcar um serão de Trivial Pursuit e pipocas (com as amigas delas, claro…).
A coisa parecia, portanto, perfeita demais, simples demais. Não podia ser. E não foi.
À hora marcada, o Nuno, já marido e pai, acabou por aparecer com a mulher e o filho. “Vejam quem eu trouxe!”, atirou orgulhoso, perante a incredulidade dos restantes, que ficaram paralisados a olhar o selvagem que se refugiava no seu colo, aos gritos, puxando-lhe o cabelo.
O que se passou a seguir foi de uma brutalidade inenarrável. O lindo rebento do nosso querido amigo começou por atirar a entrada de “meia desfeita de bacalhau” para o chão, desatando depois num pranto ruidoso e contínuo que pôs todo o restaurante a olhar para nós.
O pai respondia à birra com uma cordialidade e uma calma exasperantes: “Não chores Miguelinho, o Miguelinho é tão bonito”. Nós, por outro lado, tentávamos métodos mais pragmáticos, mas igualmente infrutíferos: “Assim, as miúdas não vão gostar de ti”.
Como se não bastasse o ambiente instalado, o Nuno resolveu ainda dar ele próprio de comer à pestinha, naquilo que pareceu uma prova de técnica, do género “estás-te-a-armar-em-frente-aos-teus-amigos”.
A performance acabaria no entanto por correr mal. O puto não abria a boca, mas o pai forçava-lhe a colher nos lábios, ao mesmo tempo que gritava repetidamente, dando agora sinais de alguma impaciência: “Comes a sopa se fazes favor! Comes a sopa se fazes favor”.
No fim, sobrou sopa para toda a gente, incluindo os clientes que estavam na mesa ao lado. E toda a gente parecia cansada, extenuada, daquela agitação. Corrijo: toda a gente menos o paizinho. O paizinho estava sorridente, parecia que não se tinha passado nada; parecia que o miúdo havia estado todo o tempo a brincar com carrinhos ou a fazer gracinhas inofensivas.
Jurei então a mim mesmo que, se alguma vez tivesse um filho, enquanto ele não fosse civilizado, nunca o levaria a um restaurante, fosse com amigos em sem amigos. Essa coisa de querer continuar a viver como dantes, não faz sentido.
Ou inventam restaurantes “child friendly” ou prometo que comerei em casa nos próximos seis anos.